“QUE A NOSSA MÚSICA INVADA OUTRAS FRONTEIRAS”KYAKU KYADAFF

“O meu maior objetivo é fazer com que a nossa música invada [outras] fronteiras”

Eduardo Fernandes, o Kyaku Kyadaff para a maioria, é dono de uma carreira artística distinta, vencedor de grandes prémios nacionais e internacionais, e autor de intocáveis sucessos como as músicas “Mónica” e “Entre sete & sete rosas”. O cantor e compositor de 41 anos, nascido na pequena aldeia de Kinkombo, em Mbanza Congo, que quase dedicou a sua vida ao sacerdócio, é o dono da produtora Gira Discos e deseja, através da sua música, levar a cultura angolana além-fronteiras.

Colaborar com os músicos Lokua Kanza e Youssou N’dour, é um dos projectos que o cantor está prestes a concretizar.

Kyaku Kyadaff ladeado pelo Kilo Kilo e Carina Sousa nos estúdios da FMAFRO

ENTREVISTA DE:
CARINA SOUSA E KILO KILO

FM AFRO- Kyaku Kyadaff é o seu nome?

KYAKU KYADAFF- Eduardo Fernandes é o meu nome, mas Kyaku é um nome familiar e que também deveria constar no meu registo. O meu nome artístico seria Kyaku da Fineza Fernandes. Fineza da minha mãe e Fernandes do meu pai. Vi que seria extenso, preferi simplificar, portanto, ficou uma junção de Kyaku da Fineza Fernandes que deu o Kyadaff.

F.A. – Qual é o significado de Kyaku?

K.K.- Significa teu/tua, seu/sua, na língua Kikongo. É um pronome pessoal. 

F.A.- O que teve de deixar de fazer para estar connosco hoje?

K.K.- Muita coisa. Eu estava no estúdio em gravação e deixei lá os coristas a fazerem a última parte para que eu pudesse cumprir o compromisso que tinha com vocês, a FM Afro, 103.3. Portanto, pessoal, meus amigos, estou aqui.

 F.A.- Nascido no Zaire, veio fazer carreira em Luanda. Como é que correu esse processo de adaptação aqui?

K.K.- Entrei para o seminário em Kwanza Norte, em 2001, fiquei por lá até 2004 e vim para Luanda definitivamente em 2005. Matriculei-me na Faculdade de Letras e formei-me em Psicologia. Muitos de nós saímos das outras províncias e vimos para a capital, por entender que é um lugar possivelmente certo para lutar, pelas várias oportunidades que existem. Portanto, eu tive simplesmente que aproveitar as oportunidades que me apareceram, mas dediquei-me o tempo todo e o que conquistei foi fruto dessa dedicação.

F.A.- Acha que o facto de ser natural e ter vindo de uma pequena aldeia de Mbanza Congo e ter-se adaptado com tanto sucesso a uma cidade como Luanda atribuiu mais mérito à sua carreira?

K.K.- Acredito que pode dizer-se que sim. Porque, várias vezes, eu vou para a minha aldeia, e vejo crianças que vivem como eu vivia. Eu olho para elas e faço uma análise, pergunto-me: Qual é a possibilidade de um menino que nasceu aqui nesta zona singrar? Começo a imaginar: Será que eu poderia imaginar que seria o Kyaku Kyadaff que todo mundo conhece?

F.A.- Quais foram as suas maiores dificuldades?

K.K.- Olha, dificuldades foram várias, como qualquer jovem que deseja singrar na vida, mas graças a Deus, aos meus amigos, à minha persistência, ao trabalho e dedicação, acima de tudo, venci.  Mas foi bom. Sair do Zaire, chegar em Luanda e vencer, não é obra do acaso. 

F.A.- E algum dia imaginou que seria quem é hoje?

K.K.- Não. Absolutamente não imaginei ser o Kyaku Kyadaff. Foi uma consequência, porque eu nunca sonhei ser um cantor. Sempre me dediquei, sempre fui professor universitário e dei aula nos colégios.

F.A.- Qual era o sonho de infância?

F.A.- Sonho como tal, não havia. O meu pai quis que eu fosse jornalista.

F.A.- Por que é que ele quis que fosse jornalista?

K.K.- No tempo de guerra, muitos aviões iam à cidade de Mbanza Congo, levavam comida para os refugiados e o meu pai, na altura, pedia que eu fosse lá ver o que traziam e fazer uma lista e levar para ele. E ele dizia: “Você é um bom jornalista.” (risos) Depois, tornei-me seminarista, comecei a sentir vocação para ser Padre mas felizmente, não cheguei a ser Padre. Digo felizmente, porque acho que tudo que acontece é vontade de Deus, e se não aconteceu, é porque Ele quis que eu fosse Padre em outra circunstância. Se calhar, hoje sou um sacerdote não religioso, que compõe músicas que salvam vidas. Me entendo dessa forma.

F.A.- Antes da carreira de cantor, passou por várias dificuldades. Qual foi o ponto que o fez despertar e pensar que estava bem?

 K.K.- Acho que foi quando comecei a dar aulas na universidade, em 2010. Daí em diante, comecei a sentir que já havia uma condição financeira equilibrada. E, no mesmo ano, eu comecei a tocar no Hotel Alvalade, como cantor de bar.

F.A.- Não foi propriamente a música que contribuiu para esse salto nas finanças?

K.K.- Não foi. Eu já estava mais ou menos equilibrado como um professor universitário, tinha um carro, uma casa. Mas hoje, eu não posso negar que a música trouxe para mim uma almofada de conforto e me sinto bem.

F.A.- É formado e dá aulas de Psicologia. De que forma é que esta área acaba por impactar na sua carreira musical?

K.K.- A Psicologia ajuda-me bastante, porque o mundo artístico é um mundo de muitos acessos, que proporciona vários momentos. Se eu não prestasse atenção a tudo isso, poderia não estar onde eu estou. A Psicologia ajudou-me a atingir o patamar em que me encontro e também ajuda-me a equilibrar o nível emocional, porque na música, se você não tiver equilíbrio emocional, você cai com facilidade.

F.A.- É esta ideologia que mantém a solidez da sua carreira?

K.K.- Sim, são 10 anos de carreira. Graças a Deus, consigo fazer uma gestão bem controlada, porque eu acho que, na carreira, 10% é o talento e o resto é negócio. E na música, negócio é saber gerir a carreira, porque você pode fazer uma música só e atingir um sucesso, cair na graça do público, mas a continuidade das gravações das músicas e do sucesso está no controle emocional e em fugir de certas ofertas, desde dinheiro, sexo e droga. Se você não tiver equilíbrio, recebe tudo e tudo entra na sua casa e quando despertar, tudo o que você ganhou estragou.

F.A.- É conhecido por ser uma pessoa simples e sempre longe de polémicas. É verdade?

K.K.- Acredito que eu sou uma pessoa simples, por ser o que eu sou. É o que as pessoas acham e não sei exatamente porque é que as pessoas tratam-me por simples! (risos) Nós obtemos os títulos e um dia poderemos não os ter. Não fico agarrado ao sucesso que tenho. Tenho sucesso, graças a Deus, e tudo que vem de Deus deve ser simples.

F.A.- Com uma carreira de intocáveis sucessos, como consegue manter-se longe dos holofotes e gerir bem a sua vida pessoal?

K.K.- As pessoas conhecem-me pela música. Se me tornei um sucesso e sou uma pessoa famosa, tenho de cuidar-me. As polémicas existem, mas existe também uma gestão das mesmas para que, de acordo com pudor social, a pessoa que me conhece possa manter a mesma opinião. Como cantor, eu tenho que continuar a imprimir a música.

F.A.- É difícil gerir a vida de famoso?

K.K.- Quando se torna famoso, a pessoa se torna como açúcar. As abelhas, as moscas, as formigas e outros insetos podem pousar. É um chamariz, portanto, precisa controlar e avaliar quem é que precisa realmente. Eu gosto de abelhas, então, fico só com as abelhas e não com outros insectos, para não assustar quando for mordido pela formiga que veio por causa do meu açúcar.

F.A.- Quais são as próximas colaborações que tens nos planos? E deseja trabalhar a nível nacional e internacional?

K.K.- Nos planos, são vários cantores, acredito que não vou poder anunciar nenhum deles, mas tenho a certeza que vocês vão gostar. Mas digo que, a nível internacional, desejo trabalhar com Youssou N’Dour e o Lokua Kanza. Neste momento, estou a caminho para concretizar com estes dois cantores.

F.A.- Concretizou o seu desejo de trabalhar com os Tabanka Djaz. Qual foi a principal lição e experiência que conseguiu reter dessa colaboração?

 K.K.- A lição foi entender que eles estão há muito tempo na música, mas continuam pessoas boas, sabem o que querem. Com eles aprendi muita coisa boa. Convidaram-me para o seu show, no Coliseu. Eu estive no meio daquela multidão, aproximaram-me ao público da Guiné-Bissau que já gosta muito de mim, aquilo aumentou o amor e tenho recebido solicitação da Guiné todos os dias. Foi frutífero, graças a Deus, inclusive mantenho o contato com entidades governamentais como a Ministra, falo com muita gente.

F.A.- Muito se fala sobre o seu penteado, inclusive um dos nossos ouvintes escreveu sobre. É estratégico para a sua imagem artística?

K.K.- Muito obrigado! O penteado vai permanecer, porque eu sou Coca-Cola, não posso mudar! (risos) Eu trabalhei o Kyaku, projetei-o, organizei a imagem de um cantor que não pode vender apenas a sua voz, mas também a imagem. 

F.A.- Não sei se já viu um meme que há na Internet, é muito engraçado. Pergunta quando é que vão acabar de cortar o cabelo do Kyaku, como se tivesse ficado ao meio, sabe?

K.K.- Essa brincadeira ficou tão bonita. No princípio, achei estranho e perguntava-me: o que essa gente quer de mim? (risos) Depois entrei na brincadeira, os fãs gostaram muito, porque, às vezes, eles recebem choque da parte do cantor quando fazem uma brincadeira. Publiquei na minha página dizendo. Então, toda a hora a mesma pergunta, agora já posso responder, “sou como a Coca-Cola e não mudo de cor, então o penteado vai permanecer, é a marca do Kyaku Kyadaff” (risos).

F.A.- Tem como modelos a seguir artistas como Paulo Flores e Teta Lando. O que admira ao certo nessas personalidades e o que sente que tem em comum com elas?

 K.K.- A coragem. Os dois são artistas muito fortes, têm temas que movem a sociedade e eu sigo a realidade poética. São surrealistas. Nas suas canções, eles estão prontos a dizer algo, mas dão-te a permissão de tirar as próprias conclusões, como na música “Carta”, de Paulo Flores. Fazem música com muita alegria, e, acima de tudo, ambos carregam a angolanidade, eles imprimem sentimentos. Os dois iluminam-me. Tenho que segui-los e sou o número 3 nesse sentido, não tem hipótese (risos). Tudo o que ouvi dos dois e de outros grandes cantores, como Franco e Sam Mwangana, acabou por semear muito na minha terra, a que eu chamo mente.

F.A.- Que tipo de valores procura inserir nas suas músicas?

K.K.- Valores sociais e morais. Estamos a lutar para retomar o bom sentimento de comunicação, de unidade e de harmonia entre os angolanos e quando eu estou a compor, eu faço sempre a composição para trazer alegria às pessoas. Precisamos trazer temas que possam despertá-las, razão pela qual se verifica, ao longo dos meus 10 anos de carreira, que todos os meus temas têm um motivo, acabam por mover o pensamento da pessoa e fazer-lhes perceber a mensagem em cada música. Não basta dizer o que o povo quer, é preciso trazer no sentimento do povo o que deve mais ou menos ser feito para familiarizar.

F.A.- Qual acha que é a responsabilidade que tem para com as pessoas que admiram o seu trabalho?

K.K.- Muitas, mas sobretudo a do pudor social. Ser cantor faz de mim um formador de opinião, logo, tudo que eu falar pode levar uma legião a fazer o mesmo. Por isso, tenho que ter sempre cuidado com o que falo e faço. Por exemplo, tem muitos jovens que querem tornar-se cantor e é preciso que encontrem em mim o modelo do cantor que eles querem ser e inspirá-los.

F.A.- Quando foi que encontrou esse entendimento, que tinha essa influência sobre um grande número de pessoas?

K.K.- Foi em função da realidade do sucesso. Porque Angola inteira conhece-me, os PALOP conhecem-me. A partir da minha conta do Instagram, consigo saber quais são os países que gostam de mim. Sei qual a percentagem da população da França, do Brasil, Angola e demais países.

F.A.- Quais os 5 países em África com maior percentagem de engajamento nas suas redes sociais?

 K.K.- Em África, posso dizer que estou a 60% na maioria dos países parte.

F.A.- Quais são os países onde têm maior expressão fora de Angola?

K.K.- Moçambique, Guiné-Bissau e Portugal. Os 3 países. Depois de Angola, o país que mais ama o Kyaku Kyadaff é Moçambique, e eu, de igual modo, amo Moçambique de tal maneira (risos). Também adicciono à lista Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Na lusofonia já não temos nada a provar, porque a população gosta da música.

F.A.- Quais são os próximos países que deseja alcançar?

K.K.- Agora estou a caminhar para o Senegal. Tenho a máxima certeza que poderia estar no Senegal, em Novembro, mas vou estar em Houston, no dia 4 de novembro e depois em Washington DC, no dia 10.

F.A.- Já ponderou dedicar-se exclusivamente à música gospel?

K.K.- Ponderei sim. Enquanto seminarista, talvez poderia ter-me tornado num cantor gospel. Eu tenho esse lado gospel dentro de mim, porque a minha mãe cantava na Igreja, o meu pai tocava guitarra, na minha casa sempre houve hábito de ouvir e apreciar música. O meu pai era colecionador e até tinha um gira-discos. Por isso que a minha empresa chama-se Gira-Discos. Mas nunca tive uma orientação para ser cantor de facto.

 F.A.- Que contributo deu à sua carreira o facto de ter sido seminarista?

K.K.- O seminário deu-me disciplina, educou-me para ser um bom homem. Não cheguei a ser Padre, mas tenho a máxima certeza de que o seminário ajudou-me a ser um indivíduo com empatia, que compreende o outro e que me entende a mim mesmo. O seminário contribuiu em grande parte na minha formação e eu sou muito grato à Igreja Católica pelo contributo que deu na minha formação e continuo a ter colegas e Padres que são meus amigos e mantenho uma boa ligação com eles.

F.A.- Continua a professar a mesma religião e crença?

K.K.- Apesar de ter sido seminarista, já não tenho muita opção religiosa. Não tenho muita limitação de crença, não importa que seja evangélico, budismo, muçulmano ou outro. Para mim, o mais importante hoje em dia, é Deus e não uma teoria religiosa. 

F.A.- Na música “Mónica”, tem um trecho que diz “se não fosse a sua cobardia, eu voltaria”. A que cobardia se referia?

K.K.- (Risos) As mulheres têm aquele lado que eu chamo de aprovação. Às vezes querem alguma coisa, mas não querem dizer, e esperam que você perceba. Ela quer que você fique mas também não demonstra, a isso chamo cobardia! (Risos)

F.A.- Que conselho daria ao Kyaku Kyadaff de há 10 anos, tendo vivido tudo o que viveu, sabendo tudo o que sabe?

K.K.- O conselho que eu daria ao Kyaku seria: “é muito importante saber aproveitar as oportunidades”. 

F.A.- Houve alguma oportunidade que não foi aproveitada?

K.K.- Sim, mas eu dei lugar a isso. Por exemplo, participei no concurso Unitel Estrelas ao Palco, mas no dia do segundo casting, eu preferi ir fazer a prova de Estatística e com aquilo fiquei automaticamente desqualificado. Se voltasse no tempo, teria, provavelmente, prescindido da prova, continuaria no concurso e procuraria outro momento para fazer a prova.

F.A.- Qual é a importância que atribui aos prémios que venceu até agora?

K.K.- Tenho muitos prémios, desde 2012 que os ganho. Os últimos, ganhei em 2018. Depois do lançamento da música “Mónica”, ganhei o Top Dos Mais Queridos 2018, e, nos Estados Unidos da América, ganhei o prémio de Melhor Cantor da Lusofonia, pela African Muzik Magazine Awards (AFRIMMA). Estes prémios ajudaram-me a crescer, a entender que tenho que continuar a trabalhar para atingir o nível que eu quero, e nesse nível, em primeiro lugar está África. Cantamos aqui, mas no Congo Democrático ou no Congo Brazaville a nossa música, se calhar, não chega, mas a música congolesa nos invade com facilidade. O meu maior objetivo é fazer com que a nossa música invada as fronteiras que não falam a nossa língua. 

F.A.- Qual é o artista angolano que sente que se se esforçasse mais, seria o próximo Kyaku Kyadaff?

K.K.- Eu amo vários cantores da nova geração, gosto muito do Anderson Mário, admiro-o muito e a sua capacidade artística, de dança, o controle de respiração entre a dança e a voz, eu amo. E acho que se ele continuar a trabalhar todos os dias, chegará aos níveis que Angola vai aplaudir muito. 

F.A.- Qual é a sua opinião sobre a produção de músicas sem palavrões, sem insultos, profanidade e nudez? 

K.K.- É o que queremos. A música entra na vida das pessoas sem pedir licença, então nós estamos a participar da construção de uma sociedade saudável. Eu sou apologista de músicas de qualidade, que tenham boa sonoridade, que facilitem as famílias dançarem, conviverem. E os pais devem sentar e ouvi-las com os filhos. Aprendi a ouvir as músicas que o meu pai gostava e eu acabei por gostar. Hoje em dia, alguns pais colocam as minhas músicas em casa e os filhos acabam por amar o Kyaku Kyadaff por isso. Tem muita gente que diz que o seu pai é um grande fã, que gosta de mim por isso, e chamam-me para tocar nos seus casamentos. Eu canto em mais de 4 casamentos todos os fins-de-semana.

F.A.- Quer dizer que nunca cantou num divórcio?

K.K.- Não, não, não. O divórcio é particular (risos).

F.A.- Qual a história mais caricata que viveu com os seus fãs?

K.K.- Eu ando livremente quando saio à rua, mas tem sempre alvoroço (risos). Tem sempre alvoroço, embora eu ande acompanhado com assistente, a agente ou alguém do staff. Um dia aconteceu algo com meu telefone, esqueci o código e tive que ir ao Candando. Posto lá, fiquei no carro a pensar o que fazer. Tive de sair e foi um misto de emoções: uns tiravam fotografias e saudavam, eu não conseguia deixar as pessoas, mesmo dizendo que tinha um assunto (risos). 

F.A.- Foi num supermercado, imagina se fosse no mercado dos congoleses!

K.K.- Desde que me tornei Kyaku Kyadaff, nunca fui aos congoleses. Quero ir para lá, para a praça do Kicolo, a do Catinton, fazer compras, comprar algo. Já sei que se for para lá, terei de levar uma equipa de apoio para protecção, caso contrário, não sei como sairei de lá. Inclusive alguém sugeriu que eu vendesse o meu CD no mercado do Kicolo. Estou a imaginar (risos). 

F.A.- Quem estendeu a mão para si quando mais precisou de apoio?

K.K.- O Adão Filipe, meu pai; Manuel Gonçalves, actual Vice-Governador da província de Luanda; Maneco Vieira Dias, Nikila de Sousa, Jesus Jaime e várias pessoas, a maior parte delas produtores musicais.

F.A.- Tem amigos no mundo da música?

K.K.- Tenho sim. O Kanda é meu amigo, o Landrick, o Yannick Afroman, os Tuneza, a Ary é minha grande amiga, a Anna Joyce, o Biura. Estes eu acho que posso citar, porque convivem e continuam a partilhar grandes momentos comigo. Possivelmente posso estar a esquecer de alguns, por favor que não me julguem (risos). 

F.A.- Compões músicas para outros artistas. Sendo também cantor, como é de ceder músicas a outros artistas?

K.K.- É fácil, sim. Desde que o cantor reconheça os direitos do compositor. Para mim, não existe maior gratificação do que compor uma música para alguém.

F.A.- Compões para muitos cantores?

K.K.- Sim. Já fiz composição para a Titica, a música “Zongá” e uma que sairá brevemente. Já fiz também para a Ary, a música “Paga que paga”; a música “Não espere amanhecer”, do Menfer Júnior, meu irmão; “Recado”, de Jojó Gouveia. Compus muitas músicas e me sinto tão feliz quando vejo outra pessoa a interpretá-las. E tem ainda muita gente a pedir-me música. 

F.A.- E tem também pessoas que pedem que interprete as músicas que elas compõem?

K.K.- Sim, tem muita gente. Entretanto, possivelmente em breve, terei um projecto que vai se chamar “7 Vozes”. Vou estender a mão para jovens, novos talentos. Será um CD com 4 edições. Vou lançar um casting. Os possíveis candidatos terão de enviar os seus vídeos para filtrarmos. Os melhores vão para o concurso, e de lá, os 6 melhores vão participar num CD. E o mesmo para os compositores que querem que eu cante as músicas. Farei um concurso de compositores, dos melhores, eu escolho as músicas mas antes de as cantar, deverão registá-las junto do Ministério da Cultura, para que os direitos sejam reconhecidos antes de eu as cantar. 

F.A.- Quando é que ouve uma música e diz que vai ser um sucesso?

K.K.- Eu consigo sentir o sucesso da música em função da minha entrega e alegria quando estou a compor. A música, por si só, acaba por tocar de uma forma diferente. É como um encanto, sentes que está na energia. Embora eu imprima a mesma energia para todas, cada música tem a sua inspiração.

F.A.- Em que momento se encontra a sua produtora Gira Discos?

K.K.- Momentos bons. Não estamos a agenciar ninguém, apenas estamos a fazer projectos e estou a fazer assessoria para cantores. Existem cantores que cantam há muito tempo, mas que já não estão no sucesso. Eu estou pronto para poder assessorar e para a consultoria, de forma a colocá-los na ribalta.

F.A.- Sente-se confortável em cantar outros genéros musicais?

K.K.- Normalmente. Fiz, com o Cabo Snoop, a música “Ntanina Kwame”; com os Homeboyz fiz “Nkolwa”, que é um grande sucesso a nível internacional. O DJ Tembak e o DJ Black Coffee tocaram. Neste momento tem outra:  a música “Zulu”, com os Dj´s Tomer & Ricardo, também está a fazer sucesso a nível internacional e particularmente nos Estados Unidos da América. São estilos extremamente diferentes, mas que acabam por ter uma potência maior internacionalmente. 

F.A.- Quais são as músicas que vão marcar para sempre a sua carreira?

K.K.- Essa pergunta é difícil. Eu gosto de todas, mas “Entre sete & sete rosas”, “Bibi”, “Kilamba” e “Mónica, tenho a máxima certeza que marcarão para sempre. Não tenho motivos de queixa em relação a elas.

F.A.-  A música “Entre sete & sete rosas” é uma música saudosista. Ela desperta naturalmente muita nostalgia. Quais são os valores que sente que a sociedade angolana está a perder?

K.K.- Estamos a perder a unicidade e a empatia. Somos um povo hospitaleiro que gosta de festa, de comer e de beber, gosta de uma boa música. As sentadas familiares deveriam voltar porque juntam as famílias. Actualmente, as famílias só falam pelas redes sociais e nos grupos de WhatsApp. Se voltarmos a nos unirmos entre famílias, devolveremos a coesão familiar e estaremos a lutar contra as drogas, a criminalidade e a falta dos valores, porque os pais vão ensinar às crianças o que deve ser feito.

F.A.- Qual é a sua opinião relativamente ao projeto FM AFRO?

K.K.- A minha opinião é simples. Esta rádio tem a matriz Africana, chegou no momento certo, porque precisamos projetar o continente. A FM AFRO provavelmente poderá não só tocar músicas nas nossas línguas nacionais, mas também valorizar os cantores que acham que não têm lugar por cantarem em línguas nacionais. Esta Rádio vai valorizar essas músicas, dar credibilidade a vários jovens, porque Angola é um país muito linguístico: nas Lundas temos a dança e a música Tchianda, em Cabinda o Kintueni, no Sul temos a Sungura, aqui em Luanda temos Semba, no Zaire temos o Mbembo e no Uíge Konono. Existem vários estilos do ponto de vista Afro e nós podemos pegar essa matriz da realidade artística e levar para fora.

F.A.- Para quando uma música com o NGA?

K.K.- Eu gosto do NGA de uma forma incrível, aliás, o grupo todo. Tive a oportunidade de conhecer o Prodígio, foi uma simplicidade de pessoa, é exatamente aquilo que ele canta. Tenho a certeza que em qualquer momento poderei encontrar-me com o NGA, até porque, segundo a história que eu ouvi, provavelmente o meu pai trabalhou com a mãe dele, em Mbanza Congo. Procuro encontrar-me com ele para partilhar essa história, que eu provavelmente cheguei a conhecer a mãe dele.

F.A.- Como gostaria de ser lembrado?

K.K.- Como professor que sou e eternamente serei. Como um bom cantor da terra que todo mundo gosta e apesar de ser jovem, trazer esse lado tradicional a nossa música, ao estilo Kizomba. Quando comecei a cantar, não tinha 40 anos, mas as pessoas achavam que sim pela minha forma de ser e por carregar esse lado tradicional. Acho que é um legado que a minha avó e os meus pais me deixaram.

F.A.- Quando sair daqui, aonde é que irá?

K.K.- Vou voltar ao estúdio para ver o que os coristas fizeram, e depois, provavelmente, vou para casa, porque às Sextas-feiras e aos Sábados tenho muito trabalho, preciso descansar a voz para poder fazer uma melhor actuação.

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